Contos & Causos

PRONTO SOCORRO

Gravata apertada, calor insuportável, tira os sapatos sob a mesa. Despacha com propriedade. Mão esquerda toda hora coça a parte posterior da espádua direita. No banheiro tira a camisa, vergão vermelho no local, sintoma desconhecido. Secretária marca médico famoso, só depois de três dias. Banho quente, álcool, colher fria, pomada de furúnculo. Á noite, Nidinha assopra com carinho: “N’ é nada, benzinho”.

De manhã não resiste, pronto-socorro, secretária desmarca compromissos. Médico excamina com cuidado, ar de estranhice, caso incomum. Discute com outro residente, chama a chefia. Simples:

- Vamos abrir para examinar.
- Qual é o perigo, doutor?
- Coisa fácil.
- Dói?
- Nada, terá anestesia local.

Meia hora depois:

- O senhor andou no mato?
- Na fazenda.
- Era só um berne.

Agora vai trabalhar tranquilo.
Saiu muxoxo como um boi que acabara de ser castrado.


NOS CAMAROTES

Serve o scotch com avidez. Menos pelo vício, mais pela ansiedade. Lances correm nervosos, leiloeiro pede 160 mil com naturalidade, sorriso na cara.

Confirmou, quem sabe agora leva, mas adversário cobre seu lance. Demora para dar outro, adversário cobre. Xinga.

Unhas afiadas - a namorada solidária no nervosismo - passam-lhe pelos joelhos, alcançando as coxas, quanto carinho! Olhos verdes suplicam a compra:

- Faz, amorzinho, se é de tua vontade. Te farei todas as outras. O que vale é que sejas feliz!

Destemido, lasca uma oferta bem superior, arredonda a conta, atordoa o outro licitante, ganha a parada. Leva a égua e uma nova promessa da moça.


ANIVERSÁRIO DE MORTE

- Que saudade dele! - ronronava seu Tristão. A patroa consola, dedinhos
na nuca, arrepio de tristeza. Aniversário de ano da morte de Ducado, “o” reprodutor - como falava com reforço no artigo.

Tristeza profunda, até para ir ao haras faltava vontade. O campeão nacional, o garanhão prepotente, o ganhador de concursos de progênie, a alegria da família, tinha sido chamado por Deus.

Antes, na época de cobertura era só alegria, cheio de gente, cem éguas de toda parte vinham para cobrir com ele - um orgulho, uma das coberturas mais caras do mercado. Agora, nome de alameda, baia vazia, piquete vazio, conta bancária vazia, que saudade!


CAIPIRA DO MATO

Na roça é assim: o pagamento é feito na primeira Sexta-feira do mês. Logo que o caboclo bota o dinheiro no bolso, põe a família no ônibus e vai pra cidade mais próxima fazer a compra do mês. Só volta na Terça-feira com o caminhão do mercado e com uma ressaca desgraçada.

Vejam o que aconteceu com o caipira que eu conheço.

Com um pacote de dinheiro no bolso, botina nova, camisa xadrez, fivelão brilhando partiu rumo a São Paulo. Desceu do ônibus numa movimentada avenida e ao tentar atravessá-la, um carrão enorme, preto e com placas dessas que só político tem, quase atropelou caipira. Freou uns 50 metros à frente, botou a cabeça pra fora e gritou:

- Vê onde anda seu filho da mãe, não enxerga não… caipira do mato.

Levou um susto danado, e ficou mais assustado ainda, pensando como o desgraçado sabia que ele era caipira do mato.

Assim pensando, entrou numa dessas lojas mais caras de São Paulo, comprou um rayban legítimo, um sapato de cromo, pulseira de ouro, Rolex, etc.

Sentiu-se verdadeiramente sofisticado. Voltou pra mesma avenida movimentada e foi atravessá-la. Veio então o mesmo carrão preto do político e quase o atropela.

Parou logo mais a frente e gritou:

- Paulistano filho da mãe, não enxerga não…? Parece até um caipira do mato.


BRINCANDO DE PEÃO

Os pais de Briba e Vitão tinham uma fazendola em Sabaudia, PR, cidadezinha entre Arapongas e Astorga, onde nasceram Chitãozinho e Xororó (só coincidência, alhos não tem a ver com bugalhos).

Traquinas feito resultado do jiló, um dia desafiaram a batota do ginásio para umas “muntarias”. Laertão, mais velho, conseguiu a Studbaker do pai. Quatro na cabine, acho que pelo menos uns dez na caçamba. Deitou o cabelo na estradinha. Pó vermelho engruvinhava no nariz, espremia os olhos, tampava a boca, sufoco. Os cabelos compridos, anos 60, ficavam cor de cobre.

O garrote chita trancado no brete, a porta do mangueirão. Atrevido que só, Déva quis começar. O primeiro garrote mostrou cedo quem era. Bastou bater a barrigueira de corda, o capeta se virou no avesso. Déva inquietou-se, mas não podia mais refugar. – “Solta o bicho!” Magrela, pernas quase arrastava no chão. Foi uma corcoveada só, pernas pro ar, o projeto de peão encheu a cara na bosta da vaca, ainda fresca, bem verdinha.

Todos tiveram vez, ninguém agüentou mais que três corcovos. Um braço quebrado, pernas raladas, mal jeito nas costas, um desalinho total. À noite, no baile, orgulhosos, exibindo os ferimentos com orgulho, contaram vantagens até não poder mais. Até hoje não tive notícia de que um deles tivesse virado peão de verdade.

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